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quinta-feira, 15 de abril de 2010

Espelho

Considero este blog um blog espelho do modelo de onde está inserido: respeita os recessos escolares, independente da dinâmica do mundo da internet, responde apenas ao seu superior imediato, fechando-se em seu regime. Salve, salve as universidades.
Cá entre nós, eu sempre achei que o ano só começa em meados de abril.

quarta-feira, 10 de março de 2010

um dia e depois outro

o sol sempre vem depois da tempestade, mas a ilha não me convence que vai mudar. Dentro das casas o pó de ontem continua no mesmo lugar.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

"Um suicídio no trabalho é uma mensagem brutal"

Faz um tempo que recebi um e-mail (e isto deve ter sido notícia) sobre os suicídios na France Télécom. Agora recebi um link sobre o fenômeno suicídio no trabalho. Vale ler e pensar.

Entrevista a Christophe de Dejours

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

na grade de horários

descobri que em 2010 os estudantes que gozam do direito do desconto no transporte público não gozarão mais da liberdade de ir e vir, pelo menos não utilizando seus cartões pré pagos e limitados, a bel prazer da curta gama de horários da tabela de carros coletivos.

Explico-me: todos terão seus horários de utilização do chamado passe escolar limitados pelo seu turno de estudo. Deixando os caprichos de lado, pois nunca mais meia entrada no cinema, já que o dinheiro só da pro ônibus, será que alguém avisou pra quem pensou nisso sobre os trabalhos em grupo ou na importância de utilizar os espaços coletivos das instituições de ensino como as bibliotecas ou até mesmo as quadras desportivas?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Anistia X Impunidade

Anistia X Impunidade
POR SILVIO TENDLER


Ao Ministro da Defesa
Exmo. Dr. Nelson Jobim

Invado sua caixa de mensagem pedindo atenção para um tema que trata do futuro, não do passado. O Sr. me conhece pessoalmente e lembra-se de que quando fui Secretário de Cultura de Brasília, no ano de 1996, o Sr. era Ministro da Justiça e instituiu e deu no Festival de Cinema Brasília um prêmio para o Filme que melhor abordasse a questão dos Direitos Humanos. Era uma preocupação comum a nossa.

Por que me dirijo agora ao senhor? Um punhado de cidadãos ? hoje somos mais de dez mil ? assinamos um manifesto afirmando que os envolvidos em crimes de tortura em nome do Estado Brasileiro devem ser julgados e punidos por seus atos, contrários aos mais elementares sentimentos da nacionalidade. Agimos em nome da intransigente defesa
dos direitos humanos.

O Sr., Ministro da Defesa, homem comprometido com a ordem democrática, eminente advogado constitucionalista, um dos redatores e subscritores da Constituição de 1988, hoje em ação concertada com os comandantes das forças armadas, condena a iniciativa de punir torturadores pelos crimes que cometeram.

Este gesto, na prática, resulta em dar proteção a bandidos que desonraram a farda que vestiam ao torturar, estuprar, roubar, enriquecer ilicitamente sempre agindo em nome das instituições que juraram defender.

É incompreensível que o nosso futuro democrático seja posto em risco para acobertar crimes praticados por bandidos o que reforça a sensação de impunidade. Ao contrário do que afirmam os defensores da impunidade dos torturadores.

O que está em juizo não é o julgamento das forças armadas, como afirmam os que as querem arrastar para o lodo moral que mergulharam. Agora pretendem proteger sua impunidade, camuflados corporativamente em nome da honra da instituição. Um pouco de história não faz mal a ninguém. Não está em questão que para consumar o golpe de 64, os chefes militares de então tiveram que expurgar das forças armadas milhares de homens entre oficiais, sub-oficiais e praças cujo único crime foi defender o regime
constitucional do país. Afastaram da vida política brasileira expressivas lideranças, cassando direitos políticos e mandatos parlamentares ou sindicais. Empurraram milhares de cidadãos, na imensa maioria jovens, para a ação clandestina que desembocou na luta armada.

De qualquer maneira os golpistas de 64 protegidos pela lei de anistia não serão anistiados pela história. Fecharam e cercaram o Congresso Nacional. Inventaram a excrescência chamada de Senador Biônico para não perder, pelo voto, o controle do Senado em plena ditadura militar.

Os chefes militares podem ficar tranqüilos que seus antecessores não irão para a cadeia pelos crimes que cometeram contra um país, contra uma geração inteira, a minha, que desaprendeu a falar e pensar em liberdade.

Nada disso está em juízo. Vinte e cinco anos depois de iniciada a transição democrática, o que está em juízo não é o processo de anistia política. Tranqüilize seus colegas militares, ministro.

O regime militar não está sendo julgado pela quebra do sistema público de saúde ou pela quebra do sistema educacional. Estamos pedindo a punição contra criminosos comuns por crimes de lesa humanidade.

Queremos o julgamento e condenação da prática de crimes hediondos. Só isso. Assusta a quem? Em nome do quê o Brasil será eternamente refém de bandidos? O que justifica acobertar crimes condenados por todos os códigos, normas e tribunais internacionais em matéria de direitos humanos?

O Sr. deve estar se perguntando o porquê do meu empenho nesta causa. Vou lhe contar. Despontei pra a vida adulta baixo a ditadura militar. Em 1964, tinha 14 anos e cresci sob o signo do medo. Sou de uma família de judeus liberais, meu pai advogado e minha mãe médica. Invoco as raízes judaicas porque meus pais eram muito marcados pelo holocausto, pelos crimes nazistas cometidos contra a humanidade. Tínhamos muito medo das soluções autoritárias.

Eu queria viver num país livre e tinha sentimentos de profunda repugnância a ditaduras. Meus amigos também eram assim. Participei de passeatas, diretórios estudantis e cineclubes. Queria derrubar a ditadura fazendo filmes. Acreditava que era possível. Em 1969, um companheiro de Cineclubismo seqüestrou um avião para Cuba. Não tive nada a ver com isso. Desconhecia as intenções e a organização do seqüestro.

Meu crime foi ser amigo – sim, meu crime foi o de ser amigo de um seqüestrador. Quase fui preso e morreria na tortura sem falar, não por ato de bravura, mas por absoluto desconhecimento de causa. Não pertencia a nenhuma organização revolucionária. Não sabia nada sobre o seqüestro.

Escapei dessa situação pala coragem pessoal de minha mãe que driblou os imbecis fardados que foram me prender e consegui fugir de casa nas barbas da turma do Ministério da Aeronáutica que, naquele momento, ao invés de dedicar-se a cumprir sua missão constitucional de proteger nossas fronteiras, prendiam, torturavam e matavam estudantes. Tive também a ajuda do Coronel Aviador Afrânio Aguiar que empenhou-se até a medula para que não fosse preso e massacrado na Aeronáutica. A ele dedico meu filme mais recente Utopia e Barbárie. Sem ele, dificilmente estaria contando essa história hoje aqui. Outras pessoas também me ajudaram a sair vivo dessa história mas como não tenho autorização para citá-los e estão vivos, guardo nomes e lembranças no coração.

Em 1970 fui viver no Chile por livre e espontânea vontade. Saí do Brasil legalmente com passaporte, ainda que tenha ido ao DOPS explicar por que saía do Brasil. Eles sabiam as razões pelas quais saía (como é cantado na música, "Não queria morrer de susto, bala ou vício"). Em Janeiro de 1971,do Chile, mandei uma carta para minha mãe, trazida por uma portadora, senhora de boa cepa, que fora visitar o filho no exílio em um gesto humanitário se ofereceu, ingenuamente, para trazer correspondência para os familiares dos exilados . O gesto lhe custou prisão e "maus tratos" nas dependências da aeronáutica.

Na carta pedia a minha mãe que me enviasse livros e minha máquina de escrever. A carta foi entregue em Copacabana por militares do Dói-Codi que arrombaram minha casa, arrombaram móveis a procura de metralhadora (Assim entenderam "máquina de escrever"). Minha mãe foi levada para o quartel da PE na Barão de Mesquita, onde foi humilhada e um dos "patriotas"que a conduziu assumiu de forma permanente a guarda do
relógio que entrou com ela na PE e não voltou para casa.

Amigos ocultos numa rede de gente decente ajudaram a tirar minha mãe daquela filial verde oliva do inferno. Sim ministro, havia muita gente decente nas forças armadas ou que gravitavam em torno dela e que faziam o que podiam para ajudar pessoas. A maioria, prefere, até hoje, não revelar seus gestos por medo dos que praticando atos dignos dos piores momentos da máfia intimidam e atemorizam pessoas de bem. Pior
do que o relógio foi o destino do ex-deputado Rubens Paiva que foi preso no mesmo dia e nunca mais encontrado.

Os senhores fazem muita questão mesmo de proteger os canalhas que seqüestraram e assassinaram o ex-deputado pelo crime de ter recebido correspondência pessoal de exilados no Chile? A quem interessa essa “Omertá"? Ministro, para esses crimes não há justificativa e menos justificativa para o acobertamento dos criminosos.

O que leva a chefes militares e o Ministro da Defesa a se pronunciarem contra a apuração de crimes? Tortura, estupro, morte, muitas vezes seguido de roubo, são atos políticos passíveis de anistia?

Desculpe a franqueza, mas não consigo entender. Em nome do futuro democrático do Brasil , espero que a banda podre, montada no Dragão da Maldade, não saia vitoriosa.
Os chefes militares pronunciam-se a favor do pagamento de reparações às vitimas do arbítrio como um ato indenizatório. Pagamento este feito com recursos públicos desviado de finalidades mais nobres para ressarcir prejuízos causados por canalhas que deveriam ter seus bens confiscados e pagarem com recursos próprios os crimes que cometeram. Muitas empresas que se locupletaram durante a ditadura e inclusive financiaram o aparato repressivo poderiam participar dessas indenizações.

No meu caso, ministro, posso lhe dizer que não há dinheiro que feche essa conta. Não pedi anistia nem indenização porque acho que não sou merecedor (nunca fui exilado, nunca me apresentei assim). E vivo bem com meu trabalho de cineasta há quarenta anos e professor universitário há 31. Se fosse pago com recursos dos bandidos, aceitaria de bom grado. Recursos públicos não.

Cada centavo que aceitasse, me sentiria roubando de uma criança ou de um homem ou uma mulher humildes que precisam mais desse dinheiro numa escola pública, num posto médico, do que eu. Não recrimino quem, por necessidade ou sentimento de justiça, o faça. A reparação que peço é a punição exemplar dos torturadores da minha mãe. O senhor há de concordar que não estou pedindo muito nem nada despropositado. E quando digo que penso no futuro e não no passado é porque a punição exemplar de criminosos desestimulará semelhantes práticas no futuro e terá uma função pedagógica para os que caiam em tentação de uso indevido dos poderes do Estado, que entendam que não vivemos no país da impunidade.

Justiça, peço apenas justiça.

Bom 2010 para o sr.

Atenciosamente

Silvio Tendler

P.S. Falamos de tanta coisa mas esquecemos de comentar dois crimes cometidos depois de 1979 que já não estariam cobertos pela lei de anistia: O assassinato de D. Lyda Monteiro da Silva, secretaria do Presidente da OAB e a mutilação do jornalista José Ribamar em 1980 e em 1981a bomba que explodiu no Riocentro que causou a morte de um sargento e graves ferimento no Capitão.

Imagino que enquanto advogado, o quanto lhe repugna o assassinato da secretária do Presidente da OAB e a mutilação de um jornalista. Tantos anos decorridos talvez ainda seja possível descobrir "os comunistas" responsáveis pela bomba do Riocentro, como concluiu o vexaminoso IPM instaurado na ocasião.

Por falar em comunistas, movimento que condenava a luta armada, o que dizer do assassinato do jornalista Wladimir Herzog, do operário Manoel Fiel Filho e do desaparecimento do dirigente Davi Capistrano? Seus assassinos terão imagem, nome e sobrenome ou continuarão protegidos por este exército das sombras?

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Além trópicos

Aproveitando a discussão sobre muros que a Gis levantou alguns posts atrás, estendo essa questão para tratar de uma outra função a que se prestam os muros – no caso, os muros físicos (e aqui também entram as paredes, que se oferecem aos montes nas ruas).
~
Esses e estas são silêncios brancos e vulneráveis. Silêncios prontos para cederem suas superfícies a vozes modeladas com tinta ou spray. Estas, por sua vez, buscam ser ouvidas pelos olhos do cidadão que passa, esteja ele atento ou não. Daí que encontramos, pelas ruas de nossa cidade, ocupando os muros e paredes de propriedade particular ou de ninguém, imagens criativas em graffitti, mensagens anônimas berradas em letras garrafais, insultos de mau gosto, e até mesmo gritos de cunho político e social.
~
É nestes últimos que quero focar aqui. Alguns deles têm me chamado curiosamente a atenção, estancados como que com braços cruzados por onde passo. Entre as palavras registradas nos muros, em lugares prováveis e improváveis, há desde manifestos a questões de importância local, como “PASSE LIVRE” ou “2,80 NÃO” (referentes à tarifa do transporte coletivo da cidade - considerada a mais cara do Brasil), a desabafos de ordem global. Estes são interessantes. Muitos, com tinta fresca, tratam de questões políticas internacionais, como “HONDURAS RESISTE”, “HONDURAS SIM, GOLPE NÃO” ou “FORA BASES IANQUES NA COLÔMBIA”. Outros, já com a tinta a descascar e com a voz rouca, proclamam “VIVA CUBA” ou “FORA BUSH” (este último, por fim, perdeu a voz; mas ainda não encontrei nenhum “VIVA/FORA OBAMA”...). Me pergunto quem é que vem, na calada da noite, espalhar estes gritos surdos pelas ruas. Me pergunto também se estes conseguem encontrar, de fato, algum destino. Embora sejam indícios de que há vida lá fora sendo notada aqui dentro, parecem vozes mirabolantes, no contexto dessa ilha. Vozes destoantes. Como um instrumento encostado que a banda nem pensa em tocar...

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Muros


No início desta semana fiz algo que, por motivos diversos, não estou mais acostumada a fazer: parar para assistir TV. Relutante, eu parei. Assisti a uma notícia sobre a homenagem feita em comemoração aos 20 anos da queda do Muro de Berlim.
Em frente à tela vi uma cena onde estavam várias pessoas, em Berlim, prestes a derrubar peças de dominó gigantes e coloridas que estavam enfileiradas. As peças caíram uma a uma para simbolizar a queda do Muro.
O que mais me chamou a atenção foi o fato daquelas pessoas estarem lá reunidas, dispostas à prestar uma bonita e simbólica homenagem. Elas comemoravam um fato histórico, mais do que isso, comemoravam um resgate da liberdade, da vida e do direito de ir e vir

Parei mais uma vez e me questionei:
Até que ponto reformulamos nossos pensamentos e atos diante da destruição de algo físico?
O que um muro representa e quais são as suas variações?
Meu pensamento parou na Ilha. Parou em nós.

Florianópolis tem muitos muros.
Não com as mesmas proporções políticas, físicas e psicológicas agregadas ao Muro de Berlim.
Mas aqui também temos muros que podem ser chamados de muros políticos, físicos e psicológicos que representam nossa cultura, nosso modo de ser, agir e pensar.
Há diversos muros que são construídos e reconstruídos a todo momento.
Muros físicos para tentarmos nos proteger da crescente violência da cidade,
Muros etnocêntricos que impossibilitam o conhecimento sobre o outro que nos visita ou vem para ficar,
Muros psicológicos para a preservação da nossa "identidade",
Muros políticos que nos impedem de saber o que estão planejando para nós, cidadãos de Florianópolis.

Há tantos outros muros...
E há mais questionamentos.

Criamos muros com intuito de derrubá-los depois ou queremos apenas delimitar nosso território?
Quanto um muro pode nos proteger e nos aprisionar?
E ainda, o que podemos chamar de nosso?

As pessoas continuam chegando à Ilha. Umas retornarão para as suas cidades, outras permanecerão aqui.
As pessoas não deixarão de ir e vir, os muros continuarão sendo construídos, destruídos e reconstruídos.
A Ilha no futuro poderá ser cercada por muros do movimento "Fora Haole" ou, talvez, quem sabe, ela terá mais pontes e o padrão de Jurerê Internacional.

Os muros não podem nos impedir de ver as pontes.


quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Desabafo

Nos jornais, as notícias de sempre: os problemas do transporte público, o caos que as obras mal planejadas causam ao trânsito, os roubos, os assassinatos na capital...
Divulgar novos espaços de cultura e lazer, para quê? A população não está interessada. É preciso ter assuntos polêmicos para ter o que falar no cabeleireiro, no trabalho, durante o almoço, no supermercado...
A construção de um memorial para reavivar obras de um poeta, brasileiro, negro, não causa polêmica, nem interesse, nem questionamentos.
É preciso sensacionalismo para exercitar a língua e atrofiar a mente!
João da Cruz e Sousa, o "seu valor só foi reconhecido postumamente", é o que dizem. No entanto, me questiono: Reconhecido por quem? Para muitos ele ainda é um desconhecido e dentre esses muitos estão seus conterrâneos.
O poeta está entre os maiores do Simbolismo universal porque Roger Bastide, sociólogo francês, um dos pioneiro dos estudos sobre os negros brasileiros (falo negros brasileiros porque soa melhor, para mim, do que afrodescendente, mas isso já é assunto pra outro post). Roger Bastide também foi professor de sociologia da Universidade de São Paulo entre os anos de 1938 e 1954. Bastide, de fato, reconheceu Cruz e Sousa, os brasileiros, infelizmente, não tiveram a mesma capacidade.
Há 30 anos, em Florianópolis, tentaram prestar uma primeira homenagem a Cruz e Sousa, deram ao antigo Palácio do Governo o seu nome: Palácio Cruz e Sousa, tombado como patrimônio histórico em 1984. Somente há 2 anos, os restos mortais do poeta, que estavam no Rio de Janeiro, chegaram aqui na Ilha. Aos seus 110 anos de morte, completos no ano passado, Cruz e Sousa deveria ter recebido de presente um memorial, no entanto, este só começou a ser construído na última segunda-feira, 26 de outubro.
No espaço, que será construído no terreno do Palácio Cruz e Sousa, deverá ter um local para abrigar a urna mortuária do poeta simbolista, junto a ela também terá uma sala de leitura, uma biblioteca de autores catarinenses e uma cafeteria, onde poderão acontecer lançamentos e saraus literários.
Conforme diz a FCC, "a intenção é que a obra seja um espaço para reverenciar a grandeza do poeta e que sirva, também, como espaço de lazer", mas se ficarmos esperando que os veículos de comunicação sensacionalistas nos avisem sobre a inauguração do espaço ou esperando que algumas pessoas se conscientizem sobre o valor literário da poesia simbolista de Cruz e Sousa e tenham, realmente, algum interesse pela cultura local em geral, iremos "mofar com a pomba na balaia".

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

outras sanitas

Gastronomia e banheiros dizem muito sobre a cultura de um povo.

Continuando a pensar o vaso sanitário levantarei uma reflexão de terceiro que anda se prolongando no meu cotidiano:

"os avisos de banheiro dizem muito sobre os costumes de um local"

Essa frase carregada de reticências veio na volta da visita a uma sanita de bar.

Na parede desse bar estava, " não mije no chão".

- Nunca estive em um lugar em que as pessoas precisassem ser avisadas, frente a sanita, que não deveriam urinar no chão


O que penso ser uma constatação parcialmente irreal. Pois ao visitar seu habitat cultural deparei-me com a única louça que conheci projetada para que urinassem no chão do banheiro público.

(na verdade é um banheiro indiano, no meio de uma praia portuguesa)

algo assim, só que bonito. *não é a foto do local descrito


Enfim, lá não havia avisos como "não mije nas paredes" ou "mije no chão" (quem sabe até um "aproveite!")

Em outro choque cultural, uma viagem de grupo para um país hermano, minha hospedagem ostentava avisos no banheiro quase redecorando-o: "não jogue nenhum papel na sanita" e "antes de sair verifique se a água do reservatório não continua vazando, evite desperdício".
O detalhe é que o local estava quase sempre inundado e isso não parecia afetar o staff.

Rememorando a luta por banheiros nas caminhadas por Montevideo comentado um post antes, registro que a ida a um museu é sempre uma felicidade para viajantes-estudantes-visitantes de pontos culturais. Em geral são os banheiros mais bem cuidados, espaçosos e limpos. No que me surpreendi à manifestação do grupo de seu estranhamento:

- Não tem lixeiro, não me sinto mal de jogar papel no vaso.

E por que se sente mal, se este é um procedimento normal no local? É contra os princípios da vida? Certamente é contra os ensinamentos do dia corrente.

Retornando para casa, me sinto tranquila pelos avisos que não tenho em meu próprio trono, sempre acompanhado de boa literatura.

Eis que ao voltar então minhas atividades universitárias, procuro um cubículo sanitário na faculdade e ao entrar encontra a sanita com a tampa baixa e uma pegada marcada em seu topo.
Recordo-me, imediatamente, de um episódio constrangedor e cômico ao mesmo tempo. No começo de uma noite de bar vou ao banheiro, refaço o ambiente: ruídos ao fundo, desconforto habitual, preparo ritual. Barulho incomum, passos e alguém pula, no que compreendo ser o pulo sobre a sanita ao lado para debruçar-se na divisória e invadir a privacidade da evacuação. Grita "mulheres" e sai correndo.

Quando pensei escrever sobre tais reflexões imaginei que ainda teríamos que afixar nas paredes dos banheiros "proibido subir na sanita", depois me dei conta de que já tinha lido este aviso e mais, buscando ilustração para essas palavras, descobri até mesmo incentivos para o ato de espiar.