sexta-feira, 7 de maio de 2010

síntese



(em defesa do texto visual)

SAUDADE

Viajar é uma experiência fascinante. Sobretudo, quando no local para o qual você viaja, existem pessoas que falam uma língua irmã à sua. Palavrinhas mágicas vão sendo aprendidas e algumas outras nem se precisam aprender, são iguais.

Há na experiência de conhecer uma nova cultura, um novo povo, um novo idioma, inúmeras vantagens. Uma delas, seguramente, é o aumento da possibilidade de significar as coisas no/do mundo. E quando as coisas do mundo são, especialmente, sentimentos, essa experiência torna-se ainda mais rica.

Maneiras distintas de mensurar o tempo também fazem parte dessa grande experiência. Como alguém pode pensar ou medir o tempo de outra maneira que não aquela que minha língua expressa? Aquela que sempre existiu pra mim? Perco tempo com essas questões...

Afinal, que é o tempo?

A língua que mede aquele tempo, certamente, não poderia originar uma palavra que dá conta do sentimento de querer que este tempo corra depressa.

Ergonomia, Horácio!

Acabo de notar que a tela do computador em que escrevo está assentada sobre uma pilha de livros. Não fui quem que os colocou ali, de modo que só posso especular sobre as intenções de quem o fez.

A motivação principal é, provavelmente, ergonômica: trata-se de, com os livros, elevar a tela até a altura dos olhos do usuário.

Mas isso talvez não explique tudo. Os livros, é preciso acrescentar, são, a rigor, sucessivas edições de uma revista especializada, a Letras Hoje, da PUC do Rio Grande do Sul. Suas capas são todas da mesma cor — verde — e seguem a mesma padronagem. Tudo isso me leva a concluir que a escolha dos volumes foi orientada por um critério estético.

O terceiro motivo, suponho, é epistemológico.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Qualquer coisa

“Escreva sobre qualquer coisa”, foi o que me responderam, depois de feita a temível pergunta “Sobre o que escrever?”. Tomo a resposta ao calcanhar da letra e aceito o desafio de escrever sobre “qualquer coisa”. Primeiro, é preciso suspender qualquer possibilidade metalingüística, pelo simples fato de que não há tal possibilidade. Deus talvez possa falar da língua dos homens, mas, nós mortais temos apenas uma linguagem. Falar metalinguisticamente é falar tautologicamente, i. e. dentro de um mesmo sistema, pois seriam necessárias novas referências para sustentar novos conceitos, e novos conceitos não dispensam a linguagem. Uma formalização não traduzida para uma linguagem ordinária continua a ser apenas uma série de símbolos autológicos: são signo e referência. “Qualquer coisa” é qualquer objeto, mas não é um objeto qualquer. Sua indefinição repousa justamente nos limites do que não pode ser definido, portanto seu limite é a definição. Mas não há termo a esta definição. Abandonamos nossa teoria? Absolutamente não; desde que o termo seja fim, feche uma totalidade. Assim, “qualquer coisa” continua a ser qualquer coisa. Mas, o que? Do que falamos até agora? “Qualquer coisa” é alguma coisa. Sim, mas como se pode falar de alguma coisa indefinida, ou antes, como se pode predicar indefinição de alguma coisa? A indefinição é a negação de uma definição, portanto de alguma coisa. Não pode ser isto ou aquilo outro, mas uma indefinição. Falamos do que não se conhece? Mas como se pode falar do que não se conhece? Se a linguagem permite que se cometa tal absurdo lógico, então existe outros interpostos pelos quais passa que não apenas signo e referência, já que se fala de algo pro qual não há referência. Ou, acaso pode-se apontar para "qualquer coisa"? Não, pois mesmo que se pudesse, ao apontar para "qualquer coisa", “qualquer coisa” deixa de ser o que é para ser qualquer coisa apontada. O ato de apontar dá um contorno para “qualquer coisa”. Há, no entanto, um uso de “qualquer coisa” que talvez possa lançar objeções ao que se disse: quando alguém diz, “Escolha alguma coisa”, “Mas o que?”, “Bem, qualquer coisa!” Nesse caso “qualquer coisa” se define por alguma coisa de um conjunto de coisas que estão em um lugar, e este é o máximo a que definição pode chegar. Há um termo para ela. Como se vê, este não é o caso. Se a linguagem permite falar de algo pro qual não há referência, então não faz sentido falar em termos metalingüísticos, pois ela, por si só, já ultrapassa o âmbito dos objetos; visto que a linguagem não é um simples apontar para eles, como queriam os gênios inventores do mundo de Gulliver, falar metalingüisticamente é fazer meta-metalinguagem; é objetificar algo que já é capaz de criar objetos, e que, por isso, possibilita que haja metalinguagem. Entretanto, do que fala a metalinguagem? Tudo se torna um imenso jogo de espelhos. Não se pode falar de um objeto objetivamente."Qualquer coisa" é um objeto da linguagem, mas não do mundo. Só podemos falar de “qualquer coisa”, porque não temos o mundo. E perco o desafio, se desde o início (não) falei de nada.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Cinema


De 11 a 18 de maio, um mês antes do 14º FAM, a organização do festival, em parceria com cineclubes locais, preparou uma mostra itinerante com os filmes ganhadores do Troféu Panvision da edição de 2009, nas categorias Curtas Mercosul 35 mm, Vídeos e Infanto-Juvenil. Na programação estão produções que receberam diversos prêmios, como Os filmes que não fiz, de Gilberto Scarpa, de Minas Gerais, o melhor curta-metragem, e o catarinense Ângelo, o coveiro, de Renato Turnes, melhor vídeo do festival.



o texto

Parece que no nosso mundo (acadêmico) tudo é o texto.
Não passa por ele. Não é por meio dele. Simplesmente é o texto.

Hoje defendi o texto.
O texto como entidade.
O texto como detentor da ideia. Detentor do homem, da essência.
O texto como caracteres bem postos, cheios de si.

Por que devo me importar com o número de exclamações ou as reticências?

O texto que me trai. O texto que não domino. O texto que não entendo.
Mas é o texto que cada vez torna-se o nós.

Estavam dois bolsistas como os dois pinguins de uma tira da revista Piauí.
Cada um em seu computador, lado a lado, e um bolsista perguntou para o outro "você viu o que eu twitei?". O outro responde "agora estou fazendo um scrap, já te respondo". Os pinguis eram blogueiros, os bolsistas eram pessoas de seu tempo, comunicando-se como todos os outros. A piada se perde, pois é apenas o mundo normal.

Será que este é o mesmo texto que defendi hoje?
Será que este é o mesmo texto que cobram tantas vezes por sua "falta" de domínio?

E se o texto torna-se o nós, como podemos ter o texto tão frágil?
Que nós somos?

terça-feira, 4 de maio de 2010

Por trás das letras

"Se você não gosta de poesias, não leia". Essa foi uma frase dita por um professor aos alunos durante uma aula. Tenho dúvidas se ele tentou aguçar a curiosidade ou desestimular de vez aqueles que não gostam desse gênero literário.
Não farei críticas ao que foi dito apenas deixarei reflexões:
Você leria poesia se não gostasse?
Quantas vezes você leu algo que não gostou e mais tarde teve descobertas agradáveis através dessa leitura?
Em meu humilde ponto de vista, sou a favor do incentivo a qualquer gênero literário. Poesia é um dos gêneros literários que mais aprecio, então sou suspeita, mas na verdade só pretendo deixar um relato sobre uma leitura que não apreciei muito e após tê-la concluído descobri algo mais: a beleza na arte de Honoré Daumier.
Mesmo não sendo uma expert em artes plásticas ou artes visuais, como preferirem denominar, ainda posso ter o prazer de apreciá-las e ver além do desenho a intertextualidade presente na obra do pintor. E isso eu só pude perceber após ler o clássico Dom Quixote.
Confesso novamente: não gostei. Somente após ter feito uma apresentação sobre a obra, em que eu precisei relacioná-la à pintura, que passei a gostar. Apresentei à classe Honoré Daumier, um dos pintores que representou Dom Quixote de maneira peculiar. Muitos outros renomados pintores retrataram "o cavaleiro de triste figura", no entanto, Daumier inovou na cor e na luz de sua pintura dando a ela um aspecto aéreo e disforme, o que caracterizava muito o nosso herói/anti-herói Dom Quixote. Além disso, Daumier retratou muito do personagem idealista e sonhador que havia nele mesmo. O pintor emocionou- me e repensei a obra literária.
Talvez um dia eu até possa dizer a algumas pessoas para não lerem romances, epopéias, poesias, ou qualquer outro gênero que elas não apreciam, porém, meu discurso será outro: "Não leiam se não gostam de tal gênero, mas vocês não saberão o que poderiam ter encontrado (ou não) nessa leitura".