segunda-feira, 24 de maio de 2010

Quimeras

Democracia e liberalismo são mutuamente excludentes.
Enquanto a democracia diz "tu podes, se tu deves", o liberalismo diz "se tu queres, tu podes". E é desse odioso hymeneu que nasceu a política moderna; aliás, um eufemismo para briga de comadres.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Musicologia

Ao pedirem que explicasse um difícil étude, Schumman sentou-se ao piano e o tocou novamente.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Definição

Caridade é exorcizar demônios aposentados.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Colonização

na mais interior geologia,
eivada de sangue
e de ti,
prosperam potosís de alegria.

quanta iniquidade eu já não fiz?
quantos corpos de negros escravos não moí
para fartar as naves imensas
da ganância de ser feliz?

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Alívio copernicano

Eram 15h.
- Bom dia, disse um senhor.
- Bom dia, respondi.
- Bom dia, disse de novo.
- Bom dia, respondi.
- Sim, porque é dia. Não existe “boa tarde”, muito menos “boa noite”. Se tu estiveres na rua a uma da manhã e tu encontrares alguém, tu dirás “bom dia” ou “boa noite”?
- Boa pergunta. O que eu deveria dizer?
- Bom dia. Não existe noite. A terra é redonda. O que existe é sombra. Mas, tenho que ir. Devagar, minhas pernas cansam rápido. Bom dia.
- Bom dia.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Paulinho da Viola

voz transparente
e triste
e quase morta:

porta
de papel de seda,

enciclopédia de papel de seda:

entreaberta,
exala um cheiro:
verbete que a define.

este
verbete:
verbo pequeno
e transparente
e triste
e quase morto.

ser assim é, no entanto, a sua força
— a que cava o leito do rio que passa em nossas vidas:
remotas batucadas.

domingo, 9 de maio de 2010

Qualquer coisa I

A falta de delimitação temática deste blog me causa, também, inquietamento. Parece mais difícil escolher quando a escolha não é feita entre duas, mas entre possibilidades infinitas. Me sinto tão atônito aqui, quanto quando vou ao supermercado comprar um simples shampoo e fico minutos escolhendo entre as infinitas variações do mesmo – acredito que eles embalam a mesma sopinha em plásticos de diferentes cor e tamanho.

Quando a aeromoça de uma viagem de avião – a única que fiz que teve janta – perguntava quase gritando com o sotaque canino dos anglo-saxões “beef or pasta!?”, a escolha era bem mais fácil, era imediata, por impulso, um segundo fazia diferença entre receber a amorfa refeição ou causar a fúria da ex-sex-symbol sexagenária. Eu, rapidamente, percebi qual dos males era o menor.

Aqui no blog a atonicidade frente ao escolher entre infinitos temas é agravada, ainda, pela falta de limite temporal objetivo – claro existe a obrigação semanal de escrever aqui, mas qualquer desculpa é válida para que nos furtemos dela. Esse post que faço agora, está 5 dias atrasado.

De qualquer coisa para qualquer coisa, entretanto, há uma diferença de interpretação. Claro, também, acredito perder o desafio, aquele de escrever sobre qualquer coisa. Porém, tal como quem aceita brincar de associação livre, acredito que ganho aquele outro desafio: o de enunciar a mim mesmo. Ou melhor, adquiro o desafio de suportar a perenidade do texto que escrevo aqui que, ao contrário da fala na associação livre que acaba no exato momento que surge, pode restar eternamente.